Thursday, April 27, 2006

Lolo Ferrari, a silicone babe ou a escrava do bisturi

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Lolo Ferrari (1970? – 2000)

Eis a história de uma vida, que descobri meio por acaso, e que abre portas para uma reflexão sobre alguns problemas muito actuais como as consequências da insatisfação com o corpo, a busca de um ideal de beleza que ultrapassa o humanamente viável, a violência que o cônjuge pode exercer usando a sua ascendência psicológica.

Eve Valois ficou conhecida por Lolo Ferrari, a grotesca Vénus de silicone. Sujeitou-se a 22 operações plásticas em 5 anos, mas nem por isso teve uma existência mais feliz.

Nascida em França, a 8 de Novembro de 1970 (outras biografias dão como ano de nascimento 1963), Eve disse ter tido uma infância e adolescência marcadas por um pai ausente e por uma mãe que a chamava de “feia” e “estúpida”.

Apesar dos seus sempre bons resultados escolares, de ser uma rapariga esperta com uma potencial carreira em Medicina ou no Ensino, a realidade tornou-se bem diferente. Acabando o Liceu, Eve, então com 17, inicia uma carreira como modelo e conhece Eric Vigne, um empresário de 39 anos que mais do que seu agente se torna seu marido.

Desde cedo, Eric apercebeu-se da necessidade de afecto sentida por Eve, da má relação da jovem com o seu corpo, da vontade de se querer transformar em alguém diferente, encorajando-a a entregar-se à cirurgia plástica. Foi o próprio Eric que orgulhosamente desenhou a boca e os seios, alimentando a obsessão de Eve em ser fisicamente transformada.

Eve Valois foi cedendo o seu lugar à fabricada Lolo Ferrari. “Lolo” é o calão francês para mamas e “Ferrari” o nome carinhoso que lhe dava o seu avô e que valeu uma guerra em tribunal com a célebre marca de automóveis, quando Eve tentou lançar uma linha de lingerie e uma boneca com esse nome.

Em vez de conseguir lidar com os seus problemas de auto-estima e submeter-se a um tratamento sério de psicoterapia, Lolo sofreu de uma depressão crónica, agravada pelas constantes operações que apenas a deixavam momentaneamente mais satisfeita com o seu corpo. Não demorava muito a Lolo a encontrar “pontos de melhoria” - vivia com a necessidade se abandonar à anestesia geral com a certeza de acordar transformada.

O tamanho 54G do busto foi atingido em 1995 após cinco operações, o recurso aos moldes de fuselagem da indústria aeronáutica e uma longa procura de um cirurgião disposto a realizar tal empresa.

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Lolo Ferrari em Cannes: cada seio equivale a uma bola de futebol

Em 1999, Lolo Ferrari entra no Guinness Book como a detentora dos seios mais pesados do mundo – 2.8 kgs!


Escusado é dizer que a sua carreira foi orientada para a pornografia. Ainda que o seu sonho fosse tornar-se numa actriz e cantora, todos os trabalhos que apareciam eram relacionados com a exploração do corpo e da sua imagem sexual.

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O casal Vigne

Lolo apresentava uma ambivalência de sentimentos. Capaz de dizer que os enormes seios lhe davam conforto e segurança, também dizia que todas as modificações do seu corpo se deviam ao facto de não aguentar a vida. O sofrimento físico era inevitável e Lolo afogava-se em álcool e café que misturava com comprimidos vários.

O gigantismo mamário implicava o uso, dia e noite, de um soutien especial. Lolo só podia dormir de lado e tinha dificuldades respiratórias. Tinha horror a trepidações, não podia andar de avião sob pena dos implantes poderem rebentar e vivia aterrorizada com a possibilidade de um fan lhe furar os seios durante uma actuação em clubes nocturnos.

Além das dores, tinha pesadelos constantes – sonhava que ao acordar ia voltar a ter o rosto original!

Frases como “Odeio a realidade – quero ser totalmente artificial” ou “Criei uma feminilidade que é completamente artificial” denotam o seu estado mental doente.

Lolo morreu em circunstâncias misteriosas aos 35 anos na sua casa em Cannes.

A sua mãe, Catherine Valois, reclama a condenação de Eric Vignes pelo homicídio da filha, mas, até à data, não foram reunidas provas suficientes. De acordo com a mãe de Lolo, o marido já não precisava dela, já tinha dinheiro, a casa em Cannes e uma empresa, pelo que seria a altura ideal para se livrar de uma mulher que já não podia esconder os sinais do tempo e era demasiado temperamental.

Eric esteve em prisão preventiva, mas decorrido um ano de aplicação da medida de coacção saiu em liberdade. Diz estar inocente, que Lolo cometeu suicídio, que falava frequentemente da morte. Refere mesmo que Lolo visitara uma agência funerária e encomendara o caixão, falecendo no dia seguinte, alegamente por overdose dos habituais comprimidos que tomava.

Também há quem fale em teoria da conspiração…

25 comments:

alexiaa said...

Curiosamente assisti um programa recentemente sobre a vida dela! Na altura era algo que desconhecia mas que me deixou apreensiva e que de certa forma me fascinou pelos detalhes meio masoquistas que continha!
Hoje deparei-me com este texto. Um texto que não me entediou e que considero estar bem escrito!
Um bom fim de semana!

Eva Shanti said...

Alexiaa,

Obrigada pelo comentário. De facto, o meu post teve inspiração na biografia de Lolo Ferrari que passou recentemente no Biography Channel.

Bjs

a lice said...

Já tinha ouvido falar sobre esta senhora, cujo percurso de vida é, sem dúvida, impressionante!

Desconhecida said...

Já conhecia esta história e apenas digo que, acho que de facto, o ser humano é fantástico...existem pessoas para tudo, mesmo para o que possamos achar de mais estranho e até aberrante. Sem mais palavras.

Beijo de boa noite Eva.

Parrot said...

Eva,

Tenho que confessar minha dificuldade em comentar este post....de facto existem pessoas estranhas (no sentido de diferentes), e mais estranho é quando se assumem posturas demasiadamente anormais e fora do vulgar.
Não conhecia a senhora, muito menos a história.

Grande Beijo

Maria said...

Confesso que não conhecia esta história, mas choca-me o sofrimento desta mulher que nunca foi quem quis, mudou o nome, mudou o corpo, a cara, deve ser horrível o sofrimento por detrás de tudo isto, no fundo é uma mulher que nunca gostou de si própria e consequentemente de nada na vida. É verdadeiramente trágico...
Beijocas

adesenhar said...

uffffa

sem comentários.

:)

Isabel-F. said...

bolas...que história...não conhecia...

coitada...deve ter sido uma autêntica desgraçada...

tem um bom fim de semana
beijinho

eveonclouds said...

Pobrezinha... já viste o horror de viver toda a vida insatisfeita consigo e com a vida? A história dela parece uma caricatura de mau gosto, do que um ser humano pode passar quando acredita ter de satisfazer expectativas do sistema... um beijo

Nuno said...

Já conhecia esta história que passou num documentário de um dos canais de TV ingleses. Só que nesse documentário não passou nada a imagem de uma "rapariga esperta com uma potencial carreira em Medicina ou no Ensino". O que diziam é que ela sempre teve falta de personalidade, e gostava de ser o centro das atenções de uma forma quase doentia.

O que se seguiu á sua adolescência foi triste, foi de facto muito triste.

Eva Shanti said...

Nuno,

Mais pormenores sobre a vida de Lolo Ferrari estão neste artigo da Hustler Magazine. A própria Lolo disse que gostaria de ter sido médica-anestesista e em vários textos se diz que ela tinha bons resultados escolares.

Acredito, contudo, que aqui funcionou um efeito "bola de neve" de recalcamentos, frustrações e situações mal resolvidas e que tiveram um catalizador chamado Eric Vigne.

Para mim, Eric é culpado da violência psicológica exercida sobre a mulher e da exploração até às últimas da sua imagem. Quanto ao homicídio, nada se provou, apesar das contradições entre os resultados da autópsia e a sua versão dos factos.

Lolo podia ter sido tratada se tivesse tido o acompanhamento correcto. A sua doença já atinge 2% da população americana (na Europa, não sei) e chama-se O Transtorno Dismórfico Corporal (TDC) ou Body Dysmorphobic Disordes (BDD).

A Ophra realizou 2 programas muito interessantes sobre "viciados em cirurgia plástica".

Bjs

Eva Shanti said...

Alice,
Desconhecida,
Parrot,
Maria,
A desenhar,
Isabel,
Eve,


Ninguém consegue ficar indiferente à história de Lolo Ferrari! Será mesmo caso para perguntar: o tamanho conta?

Bjs e bom FDS (dos grandes) a todos!

Nuno said...

Eva,

A mim se me perguntassem, suponhamos que para uma entrevista, "Quando era adolescente, o que é que você queria ser?". Eu, se quisesse dar uma ar cool, respondia: "Eu queria ser jogador de futebol profissional." Até me poderiam perguntar: "Então mas você tinha jeito?" E eu não me descaia: "Eu tinha um jeito do caraças. Parecia o Futre." Embora a realidade fosse outra completamente diferente. A verdade é que não sou (nem era) propriamente o pior jogador do mundo, mas não tinha possibilidade alguma de ser jogador profissional, e nem me pareceia (é que nem por sombras) ao Futre.

Rosa said...

Uma história triste, para a qual não se augurava outro final...

Meia Lua said...

Deprimente, pelo menos para mim. Mas cada um faz o que quer da sua vida e do seu corpo... Sou a favor da cirurgia plástica desde que seja para alguém se sentir melhor, mas desta forma compulsiva, deve ser terrível nunca estar satisfeito com o seu corpo...
bjinhos

mixtu said...

história... triste
jinhos

amigona said...

Coitada! Apenas infeliz...

Mocho Falante said...

é um estudo de caso muito interessante de facto, nos homens há uma patologia chamada complexo de Adonis (DISMORFOFOBIA), aconselho-te a fazer uma pesquisa e quiçá fazer um post sobre o tema, basicamente é a procura do corpo ideal, numa incessante busca descontrolada, enfim não tem muito a ver com o caso de Lolo mas vais achar interessante.

Aqui vai um link:
http://www.editoras.com/campus/20668.htm

Beijocas

Eva Shanti said...

Ora bem...

Realmente a história é triste, mas não foi explorar a tristeza o que me levou a escrever sobre a vida da Lolo Ferrari.

A intenção era mostrar até que extremo pode ir o ser humano na sua obsessão por um corpo "perfeito", sendo que a "perfeição" e "saúde" são dois conceitos incompatíveis com o modelo que a indústria cinematográfica, a moda e a publicidade nos bomberdeiam.

Também quis introduzir a questão da escala de violência, ou seja, à formas de violência que não são percebidas pelas vítimas (um tema a desenvolver) e dar um claro exemplo de alguém que sofreu uma agressão constante que, não foi física, mas psicológica.

Qual é a pessoa que, por amor, incentiva o outro a alterar o corpo desta forma grotesca? E que faz a exploração da carreira do outro à base da pornografia? Eric Vigne sempre viveu à custa de Lolo, como seu agente. Qual é o marido dedicado que arranja um trabalho à sua esposa que é nada mais nada mesmo que exibir os enormes seios em clubes nocturnos e deixar que os clientes apalpem a mercadoria? Eu cá dou outro nome à profissão e não é o de agente...

Lolo sofria de Transtorno Dismórfico Corporal (TDC) ou Body Dysmorphobic Disordes (BDD), tema já abordado pela Ophra em 2 programas, que nos homens assume a forma de complexo de Adónis - http://www.psicologia.org.br/internacional/ap29.htm

Quando comecei a escrever este post, a minha ideia inicial era ligar Lolo ao TDC (ou BDD), mas achei que a vida dela só por si merecia um pouco da nossa atenção por todas as questões que levanta.

Lolo teve uma vida triste, descansa em paz em, para quem acredita na reencarnação, fez que aprendizagem que era suposta (ou não). Mas o importante é alertar para os excessos com a obsessão com o corpo.

Não está errado querermos ser mais bonitos, sentirmo-nos melhor com o nosso corpo, combater problemas como o excesso de peso ou a celulite. O mal está na importância dada ao problema: muitas pessoas são escravas de um ideal de beleza, de defeitos que não existem ou que existindo não são impeditivos de retirar proveito da vida. Aí caímos na Anorexia, Bulimia, outras desordens alimentares e no TDC - doenças que se repercutem no físico, mas são doenças mentais.

Neste momento, não sei se publicarei algo mais sobre o TDC... Não quero "fazer chorar as pedras da calçada", mas sim permitir um olhar objectivo sobre casos extremos, contribuir para uma visão do ser humano não tão centrada num ideal de corpo que por aí se impõe, mas que seja realista, saudável e equilibrada. Somos todos muito mais do que corpos animados, somos pessoas, temos uma personalidade.

Bjs

Lord of Erewhon said...

Enfim...

Tita - Uma mulher, Um blog, algumas palavras said...

Assustadoramente impressionante...
Tive oportunidade de ver recentemente no Biography, o fim do documentário sobre a vida desta mulher...
Fiquei deprimida...e ainda não sei que dizer ou pensar, neste caso, comentar sobre o assunto.

Anonymous said...

Não tenham pena de quem envereda pelo mundo da pornografia!repudiem se fazem o favor!Quanto a ferraris Já tinham uma aversão involuntaria agora descobri porquê malditos sejam

Anonymous said...

Tbm fiquei a conhecer a historia dela pelo biography, impressionantemente ela era bem bonita antes das plasticas. mesmo gira, mas o ser humano nunca esta satisfeito com o que tem.
como falaram e reforçaram varias vezes durante o documentario, ela fez as plasticas por proprio capricho de Eric, que viveu sempre com a vontade d mudar d sexo. faltava-lhe a coragem em assumir a mudança, e lolo foi a sua boneca de trapos, com que podia realizar os seus desejos. tbm estou convencida que ele tem o nariz bem metido na questao da morte dela. e akela cara (digamos) nao é mt credivel... uma expressao que esconde mts segredos.

tanto mediatismo em volta dos seus grandes seios, e eu desconhecia completamente ate ver o documentario.

boa noite

alicia said...

curiosamente estava a ver o biography channel e deparei-me com este documentário de uma mulher fisica e mentalmente doente.tratou-se de uma materialista indignada com o que deus lhe deu.pois bem, fazendo de conta que nao tinha 1 tostão furado ou casado com aquele tarado das plásticas, provavelmente estaria viva e muito feliz com as "maminhas" com que veio ao mundo.Prestando atenção a este caso, limito-me a dizer: Accept who you are, my dear friend!

Caral2 said...

É incrível. Eu conhecia esta mulher mas não sabia o que estava realmente por detrás da polémica da mulher com os maiores seios do Mundo. Realmente, é como uma farsa ou uma máscara que ela usava para se reconfortar que, no fim a destruiu. É muito triste saber que, no bom sentido, estragou a vida com uma coisa assim.