Thursday, March 16, 2006

Sexo, Espiritualidade e Tantra
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"Nothing can cure the soul but the senses, just as nothing can cure the senses but the soul." Oscar Wilde

Na busca do conhecimento e de si próprio, na procura incessante de respostas para as questões fundamentais acerca do Ser, o Homem desenvolveu a Filosofia (ou filosofias) e a Religião (ou sistemas religiosos).

O sexo, neste caminho para a iluminação, foi entendido de diferentes formas e assimilado de forma diversa ao longo dos tempos e consoante as culturas. A libido freudiana ou Kundalini, bem como a prática sexual podem ser vistas como um obstáculo, um caminho ou um ritual.

Na maior parte das Religiões, nomeadamente no mundo Ocidental, o sexo é tido como um obstáculo à transcendência. O desejo sexual é visto como algo pecaminoso e impeditivo progresso espiritual e do acesso ao divino. Uma excepção é o Paganismo e o Wicca (ou a recuperação dos ritos pagãos e da religião dos povos pré-cristãos).


Na religião Wica, por vezes confundida com “Bruxaria” – nome a que o Catolicismo deu um sentido pejorativo com o intuito de a minar por completo e a substituir -, faz-se o culto à natureza e o sexo faz parte dos rituais, nomeadamente o Sex Magick.

O Sex Magick vem desde tempos imemoriais, também desde a época pré-cristã. No fundo, é algo que é intuitivo e que a ver com tudo o que fazemos para preencher as nossas fantasias sexuais, pois não há maneiras certas ou erradas de ter sexo.Sex Magick é uma técnica que usa a sexualidade para “fazer magia”. Pode incluir role-plays ou fantasias em que o casal representa uma cena (enfermeira-doente ou professor-aluna, por exemplo), práticas sado-maso (mais ou menos hard), acessórios ou brinquedos sexuais, ou ainda sexo em sítios inusitados. Resumindo: trata-se de uma técnica que pode ser usada em todas as formas de se encarar o sexo.


Nas filosofias Tantra e Taoísmo, o sexo é o caminho para a espiritualidade.

Se aplicarmos o Tantra ao Budismo (que é uma religião) temos o Budismo Tântrico, Se aplicarmos o Tantra ao Yoga (que também é uma filosofia) temos o Yoga Tântrico, um dos muitos ramos do Yoga.

Esta pequena introdução serviu apenas para demonstrar que há religiões, filosofias e técnicas que se podem combinar entre si.

Contudo, o que é muito falado e provoca a curiosidade geral é a aplicação do Tantra (filosofia) ao sexo, o chamado “sexo tântrico”. Vulgarizou-se esta expressão que suscita a fantasia de uma larga maioria que desconhece o seu verdadeiro significado, não só porque sonha com mais e melhor sexo, mas também porque vivemos num mundo mais aberto a experiências e há um receio da rotina ou monotonia sexual. As pessoas procuram manter a chama do romance acesa procurando novas práticas sexuais, o que é perfeitamente legítimo.

Tantra é uma palavra que vem do sânscrito (a língua que está o povo Indiano como o Latim está para nós, Portugueses) e significa literalmente “rede” ou “tecido”.

Esta filosofia surgiu na Índia há mais de 5 mil anos, como caminho para a iluminação, acessível a todos, independentemente da sua casta ou condição social.

O Tantra é:

- matriacal, porque a mulher é considerada uma divindade e é, mais do que respeitada, venerada;

- sensorial, porque se baseia nas sensações experimentadas através dos nossos sentidos;

- desrepressor, porque alheio a julgamentos, a hierarquias e backgrounds e baseado na aceitação do indivíduo e do todo.

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Trata-se de uma vivência que passa pelo auto-conhecimento para depois conhecer o outro. Por ser um modo de vida, rejeita o álcool, o tabaco, os químicos (nomeadamente estupefaciente) e o consumo de carne.

Noutro sentido, Tantra é “o que leva ao conhecimento” pelo que sexo tântrico será a prática sexual que conduz à iluminação.

O primeiro pressuposto é o de que somos fonte do nosso próprio prazer sexual, em vez de depositar no outro a responsabilidade de um prazer que é nosso.

Por isso, a primeira etapa do sexo tântrico é o auto-conhecimento: explorando o nosso próprio corpo, desenvolvendo as nossas capacidades como seres sexuais temos depois mais condições para nos relacionarmos sexualmente com os outros.

Mas sexo tântrico ultrapassa a noção de sexo como realidade puramente física passando o acto sexual para o plano da experiência mística, para a união espiritual e o orgasmo como meditação e atingimento do Samadhi ou hiperconsciência.

Há consideráveis benefícios a nível físico, mas o importante passa-se ao nível da mente.

É muito mais do que uma forma de adiar o máximo possível o orgasmo com vista ao prazer prolongado. O sexo tântrico proporciona uma transcendência que leva ao aumento da criatividade, da concentração e da energia vital, traduzindo-se na prática por melhoria do rendimento físico e aumento da esperança de vida.

O sexo tântrico possibilita:

- melhoria da intimidade do casal;
- orgasmos mais prolongados para homens e mulheres;
- o atingimento do orgasmo simultâneo;
- aumento da sensibilidade e intuição;
- uma melhor relação com o corpo (o nosso e o do parceiro);
- aumento da auto-estima;
- libertação de condicionamentos e preconceitos pela via da meditação.

O sexo tântrico não torna o orgasmo numa obrigação, num fim que necessariamente se tem de atingir no momento da prática sexual. Isso implica ter sexo dias e dias seguidos sem orgasmo.

Mas, ao mexer-se com energias psíquicas está a potenciar-se um estado superior de consciência – a hiperconsciência (ou Samadhi).

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Numa fase de aprendizagem, nas posições tântricas mais básicas a mulher ocupa o lugar superior, preferencialmente sentada de alguma forma em cima do homem. A prioridade é o gozo da mulher, a quem é permitido ter o máximo de orgasmos, enquanto que o homem aprende a retardar o seu orgasmo. É o orgasmo feminino que alimenta a energia vital e que a introduz num circuito que é construído por ambos os intervenientes no processo, usando a via espiritual. A escolha das posições tântricas pelo casal tem também de ter em conta a possibilidade do homem controlar o seu grau de excitação.

A prática de sexo tântrica não é exclusiva de casais heterossexuais. O Tantra como filosofia não lida com julgamentos morais e preconceitos, por isso nada impede que o sexo tântrico possa ser desenvolvido por casais homossexuais.

A Revolução Sexual dos Sixties além do LSD e outras drogas psicadélicas renovou um interesse pela sabedoria oriental. Por isso, quando se diz que o Tantra é um Manual de Sexo ou um culto ao sexo livre ou uma terapia sexual New Age estamos a falar de partes de uma realidade.

O sexo tântrico tem como base o Kama Sutra, mas não todas as posições do conhecido manual de sexo de Vatsyayana.

O sexo tântrico popularizou-se numa época de Revolução Sexual em que proclamava o sexo pelo sexo e o sexo livre e sem compromissos.


Osho, o guru indiano, concebeu, no início dos anos 70, uma fusão do Tantra com a psicoterapia, numa versão mais acessível ao Ocidente que ficou conhecida como Neo-Tantra e que usa o sexo tântrico tendo por fim a meditação. É essa a noção espelhada nos ensinamentos que Osho a mais difundida do sexo tântrico, que chega até nós em livros, vídeos, cursos e workshops.

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Vocabulário em sânscrito usado no sexo tântrico

Linga: Falo, pénis
Yôní: vagina

Kundalini (acentuando o último i): é uma Deusa Serpente que dorme na base da coluna vertebral, enrolada 3 ½ vezes ao redor do primeiro chakra, aguardando a expansão. Quando ela é acordada, através de qualquer de inúmeras técnicas, entre elas o acto sexual, ela desenrola-se e sobe através do centro do corpo espetando e despertando cada chakra conforme sobe. Quando ela alcança o topo, ou o chakra coronário (no topo da cabeça), então todos os chakras foram abertos e diz-se que a pessoa atingiu a iluminação.


Kundalini é uma força de grande poder, que pode produzir mudanças físicas e mentais radicais. Alguns dizem que ela é energia sexual sublimada; outros que é uma conexão de ritmo vibratório entre as ondas cerebrais e os subsistemas psicológicos. Há várias teorias, mas nenhuma delas conclusiva. Ela pode ser accionada pela prática da yoga, meditação, estimulação física, excitação mental, relação sexual ou por um mestre formado na arte de despertar a Kundalini.


Maithuna: relação sexual tântrica


Notas:

Este texto é tudo menos exaustivo sobre um tema tão vasto e complexo como é o sexo tântrico. É apenas uma noção muito básica e superficial que abre as portas para um aprofundamento do assunto.

Não sou uma especialista na matéria, sou uma curiosa...

Muitos dos links são de páginas escritas em Inglês. Todavia, sejam livres na vossa procura se quiserem aprofundar o tema bem como os conceitos focados e de optar por textos numa ou noutra língua (o ideal é conjugar a Português e Inglês).

Divirtam-se!

Estarei preparado(a) para o sexo tântrico?

O que sei de sexo tântrico...

Mais sobre sexo tântrico



25 comments:

spartakus said...

PRECISO DE TI NO MEU BLOGUE

Eva Shanti said...

LOL!

Logo eu que me estou a preparar para uma pausasita...

Mas obrigada pelo convite! É uma honra!

Bjs

Maria Pedro said...

Que posso dizer, evinha?
Aprendemos imenso contigo! Texto claro, cativante, com informação incisiva (nem a mais enm a menos) sobre o tema... Até a bibliografia facultativa (links)! Davas uma excelente investigadora / professora universitária!
Agora só faltam mesmo é umas aulas práticas ;)

Eva Shanti said...

MP,

E eu que te posso dizer?

1º) Foi um prazer e um desafio escrever este post. Já estava na calha, mas da sugestão da Isabel Filipe, passei à acção;

2º) O post que escrevi a 29/01/2006 - "O sexo – na cidade, na praia, no campo…" ganha outra dimensão;

3º) Não me vejo no papel de investigadora, mas não há dúvida que gosto de aprofundar os temas que gosto e me interessam. Sou uma curiosa...

Bjs

Eva Shanti said...

Kamarada Spartakus,

Já lá fui cumprir o meu dever e solidariazar-me contra uma atitude hostil.

Bjs

Mocho Falante said...

Olha amiga...depois de um serão tão agradável e de me ter perdido algures pela Portela...eis que aqui chego de madrugada ao emprego e aproveito para ler este teu post e penso...."humm o que eu precisava mesmo hoje era de uma cenaça destas para repor as energias". Se calhar vou sair para arranjar voluntariado para as tantrices...para recuperar energia...

Beijocas com muito spagetti e sorvete com canela


Ass: O Mocho sonolento

Mocho Falante said...

Ahhh só mais uma coisinha...descobri entretanto que o mocho não é uma espécie cinegética mas também não estou aqui disponível para levar chumbadas de caçadores fora da distância legal nem dentro da legalidade...lololol

spartakus said...

B'dia. Tantrico, de oreferência,

Eva Shanti said...

Mochito lindo,

Tens o FDS para recuperara energias, de preferência, com muito Tantra à mistura. Se é sexo tântrico ou massagem tântrica ou qualquer outra coisa tântrica isso é lá contigo...

Quanto ao serão, tenho a dizer que ainda não fiz a contagem dos talheres de prata, mas depois falamos...

Cinegético, do Gr. kynegetikón, significa relativo à caça. Realmente não haja confusões: um mocho é um mocho e um tordo é um tordo! Mas cuidado, que por causa de um tordo um homem pode ir parar à prisão!

Bjs

;)

Mocho Falante said...

ah sim nada de confundir pata à milansesa com pata aqui na mesa se faz favor, um mocho é sempre um mocho ora essa.

Quanto aos talheres de prata já sabes...se faltar algum foi por causa das chamadas para a Serra Leoa....ahahahaha

E depois querida na nossa idade...é o conforto quem mais ordena

Anonymous said...

Ófaxavor não esquecer o jarro para o H2O!!!

Ouricete

Mocho Falante said...

olha já agora o aparador também dava jeito para as chamadas para a América do Norte


rsrsrs

Eva Shanti said...

Bem,

É assim que fico a conhecer o "pé de chinelo" dos meus amigos...

Meus Caros,

Há mínimos!

Que se fossem dar o corpinho ao manifesto e usar menos o telemóvel, hum? Ah, e optem por um pré-pago, que quem não tem dinheiro, não tem vícios!

Olha agora levavam-me a casa toda!

Não viram vocês os resto das pratas e as outras preciosidades de família...

Bjs

Mocho Falante said...

já agorem usem um pré pago daqueles que não fazem manutenção ao voice mail para não perdermos os contactos preciosos para a nossa vida é que assim não há prata familiar que nos safe da miséria franciscana...Tenho Dito

Wakewinha said...

É por isso que gosto tanto das filosofias orientais: temos tanto para aprender com elas!!! Mas nunca tinha pensado no sexo como o caminho para a luz, isso não... Podemos usar isso como desculpa? (Brincadeirinha.)

Quanto ao teu poema de Pablo Neruda no Voz Oblíqua... acreditarás que foi precisamente depois de o ter lido que me lembrei de postar a imagem? Contou também, claro, um valente abraço forte e carinhoso recebido naquela manhã... ;)

Beijito e bom final de semana*

lr said...

Eva, você é realmente uma preciosidade (fora de brincadeiras, até porque não brinco com desconhecidos). Aprende-se imenso. Adorei este post. Mas anote um detalhe, além de religião, o budismo é uma filosofia... e há quem o encare apenas como uma filosofia.

Eva Shanti said...

Caro Mocho,

Tenho de engolir essa em seco. Em não tenho um pré-pago, tenho um pós-pago...

Mereço umas boas chibatadas, já sei...

Bjs

Eva Shanti said...

Wakewinha,

:)

Eu diria que podemos sempre "atirar o barro à parede", na volta até pega ;)

Quanto ao poema "Morre lentamente" é a minha forma de estar na vida: é que está tudo ali!

Bjs

Eva Shanti said...

LR,

Obrigada pelas palavras sempre simpáticas.

E é verdade: há quem considere o Budismo uma filosofia e há mesmo cristãos-budistas.

Estudei num Colégio de Padres e por volta dos meus 14 anos senti um apelo pelo Budismo e sentia-me confusa. Tive uma conversa com um padre mais novo e esclarecido que me tranquilizou e me disse que eu podia continuar a ter valores cristãos, seguir a religião católica e adicionar-lhe um modo de vida budista.

Isto independentemente de 20 anos depois eu ter uma evolução espiritual que nada tem a ver com isto. Não sou nem Católica nem Budista, sou Agnóstica. Mas isso era uma longa conversa...

Bjs

eveonclouds said...

Tantrifiquemo-nos pois,
o melhor possível,
durante o fim de semana,
com incensos e velas e cortinados de organza esvoaçantes.... OM.HA.HUM!

As Musas said...

Aquilo que faz bem à alma, faz ao corpo... ai ai ai ai que saudades de aqui passar minha amiga.

Terra do Nunca said...

.. realmente .. Eva .. tu és um autêntico livro aberto .. bjs ..

Ahraht said...

Há muito tempo (por falta dele) que por aqui não passava e deparo-me com um post maravilhoso.

Parabéns pela iniciativa.

É de facto notável como as diferenças de religão e de quadrante tornam as coisas diferentes.

Quanto a mim o sexo é libertador. É um caminho espiritual, é uma forma de encontrar-mos o divino em nós. E isso representa que sem o outro não nos podemos conhecer...

mas tu já disseste tanto...

Beijo (e desculpa a ausência...eu adoro vir aqui)

Caracolinha said...

Mulher ... isso é um autêntico tratado ... só te digo ... se as minhas performances demorarem tanto tempo como o que eu levei a ler o teu post ... então eu própria já me tereri iniciado no sexo tântrico .... olha o sting pratica-o ... e se os gajos chegarem á idade dele com aquele aspecto .... é bom que comecem a praticá-lo ... nós agradecemos !!!!

Beijoca minha linda !!!!

Nunca mais apareceste na casquinha ....

BBBBBuuuuuuuááááááá !!!!!

;)

pedroramada@hotmail.com said...

Pois.. Depois de tanta questão superficial do tipo é melhor ser homem ou mulher e quem manda mais ou que papeis deve cada género desempenhar, chega a algo fundamental.

A visão Tantrica da vida.

Mas uma coisa é falar de energias, outra é experienciar.

Se olhar para o Tantra parcialmente.... tem a minha compaixão... e tristeza, que vivo e manifesto como a alegria, serenamente.

De preferência e antes de praticar qualquer tipo de "malabrismo", pratique Yoga (seja Yoga !) purifique o corpo (Krya), discipline a mente, controle as emoções e os pensamentos, mas sem refreamentos, pela paz interior. Afinal é Shanti :-)

É um processo de desconstrução, gradual, para o qual é necessária disciplina, mas sem a obrigação, apenas pela certeza da recompensa e pelo empenhamento na procura de uma espiritualidade que liberte. Só resulta com procura...

Verá que o desejo, sem desaparecer, transforma-se e essa grande procura de satisfação e compreensão, entendimento e aceitação que todos manifestam nos seus escritos e ditos, como algo que não acontece nos vossos dias e relações, revela-se, mas apenas para colocar outros desafios e passar ao nível seguinte.

Essa é a beleza do Tantra.


Como diz M.Scott Peck, o nosso desafio é ser Deus, tem aqui o exemplo de um tantrico, americano e psicoterapeuta de 60 anos.

Mas haverá sempre quem goste de andar em circulos, como aqueles cães danados á procura de morder a própria cauda.

para os que querem técnicas deixo:

http://www.sivasakti.com

para quem quer mais:

http://swamij.com/

Om Namah Shivaham