Tuesday, June 20, 2006

ispc040032

Paradoxos

"Quando te conheci tive medo de gostar de ti, agora gosto de ti e tenho medo de te amar, agora amo-te e tenho medo de ter perder"

Anónimo

É muito difícil haver Amor sem algum apego. Aliás, acho natural que haja apego, caso contrário há desinteresse e não há Amor.

Falo de “apego” no sentido de dedicação e afecto que nos faz querer que as pessoas que amamos façam parte da nossa vida, participem dela e nela permaneçam. Falo de “apego” como o sentimento humano gerado pela necessidade básica de segurança, de pertença a algo ou alguém.

Quando o apego passa para uma dimensão em que queremos que o outro corresponda forçadamente com a ideia que fizemos dele, quando insistimos em moldar o seu comportamento aos nossos padrões e impedimos a manifestação da sua identidade própria, do seu individualismo, então já estaremos no campo do egocentrismo, do impedimento do desenvolvimento de uma relação afectiva saudável, porque há uma incapacidade de entender que tudo tem a sua vida própria e que, pela natureza das coisas, há muitas áreas que escapam à nossa influência.

Este sentido pejorativo de apego como forma de dependência existe, não só na relação de dois amantes, mas também noutro tipo de relações. Por exemplo, nas relações parentais, quando um ou ambos os progenitores tentam enquadrar os seus filhos num quadro idealizado que pouco tem a ver com a vontade destes e até com o seu perfil, obrigando-os a seguir determinada carreira para que não têm nem interesse nem vocação.

Visto desta forma, “apego” significa colocar na esfera do outro a responsabilidade de nos completar e de nos fazer felizes. No fundo, é uma auto-demissão da responsabilidade que pertence a cada um de nós de viver com decisões que só podem ser nossas e de sermos capazes de nos realizar pessoalmente.

O Amor quer-se desprendido, sem a mesquinhez do ciúme, com respeito pela individualidade do outro, sem interferências exteriores que agridam a liberdade pessoal, sem exigências e sem ressentimentos.

Todavia, qualquer sentimento humano é assolado de imperfeição e, mesmo que lutemos contra isso, há sempre momentos de insegurança, de medo, de fragilidade, de solidão.

16 comments:

Anonymous said...

You are so serious eve.

I'm not telling you that you are not right. Or interesting.

But why so serious?

M&M said...

Gostei imenso deste post... mesmo muito bom... A frase inicial é realmente verdade... que complicados somos...

Ana said...

É sempre assim... o medo de não conseguir, o medo de perder..., mas se não fosse assim se calhar não tinha piada... sei lá!

Caracolinha said...

Desculpa querida, mas não consegui passar da primeira frase ... demasiado intensa para me deixar conecções neuronais para ler o resto do texto ... somos assim não é ??

Sempre ... acho que vou copiá-la ... :)

Beijoca encaracolada e desculpa as minhas ausências mas ando com uma preguicite dos diabos !!!!

Mas sabes que te gosto à brava né ?? temos que combinar com o amigo mocho uma valente jantarada !!!! :)

adesenhar said...

podiam continuar!

medo de te perder...
medo de te esquecer...

:)

Parrot said...

Querida Eva,

Muito boa esta tua reflexão. Gostei.
Muito poderia dizer, mas prefiro apenas assinalar a última frase do teu post......

Beijinhos e bom fim de semana

a lice said...

Medo de tudo, e medo de nada... medo...

Beijinhos e um bom fim-de-semana!:)

Anonymous said...

.. quando o outro nos cativa .. e entra no nosso coração .. temos um problema muito grande .. talvez para toda a nossa vida .. e se levamos uma tampa enorme d'alguém que nos magoa cheio de razoabilidade e bom senso .. ficamos de rastos .. O que sinto é que, apesar de tudo,
muitas vezes a razão comanda o coração
.. e acabamos sempre por tomar o caminho da menor perda .. ou então desgraçamos a nossa vida por amor .. Sabes Eva .. de certa forma .. já dizia um menino que tinha três vulcões e uma rosa .. .. embora sejas apenas uma Eva entre milhões delas .. és/serás essencial para um coração .. onde quer que ele esteja .. .. porque só vemos e vivemos bem com o coração .. de preferência cativo e correspondido .. bj .. Sérgio

Sérgio said...

Pois é .. um grande problema .. mas o tempo cura tudo .. bj ..

Clife said...

"A tout le monde
A tout mes amis
Je vous aime
Je dois partir
This are the last words
I´ll ever speak
And they´ll set me free"

beijos ***

ordePadamaR said...

Apego é apego...

Não existe o bom apego nem o sentido prejurativo do apego.

Pode existir afeição sem implicar apego. Este e o conceito de liberdade, estão muito próximos. O Amor não é pois compatível com apego, porquanto, se não quisermos brincar com palavras, do que falas é da posse, embora atenuada, por uma palavra mais leve.

Deixa-me dizer que o sentido que dás a apego, conduz aqueles relacionamentos co-dependentes..tão destrutivos.

Importa ultrapassar as dualidades, tentando alcaçar um plano mais relativo, menos afunilado = absoluto, antes, uma perspectiva mais integrada, em que as partes são o todo e o todo, mais do que a soma das partes.

De outra forma é muito difícil encontrar um "Nós" ou até perceber um Eu

Leonoretta said...

tudo verdade e muito bem descrito. o sentimento geral do ser humano será mesmo o de pertença que é desenvolvido em pequeno atraves do primeiro objecto. depois fazer a separaçao de pessoa e de objecto é dificil.
muitos optam por nao amar. se calhar e mais facil e doi menos ao outro e a nos.
beijinhos da leonoreta

Tita - Uma mulher, Um blog, algumas palavras said...

Gostei imenso deste post, mas a última frase fez-me pensar e reflectir nessa verdade tão evidente e nem sempre lembrada ou tida em conta.
Beijo e obrigada pelos temas que aqui discutes.

Eva Shanti said...

Caríssimos,

Antes de mais, obrigada a todos pelos vossos comentários.

Apego, sentido de posse, qualquer outra coisa que lhe queiram chamar, existe e existirá sempre. É humano, é natural, negar a sua existência é contrariar a natureza humana.

Não só no Amor, mas noutros campos, tem-se tentado negar essa natureza humana, sempre em vão. São a História e experiência que o demonstram.

Há quem defenda a utopia de uma sociedade em que todos seriam de todos, as crianças não teriam 1 mãe e 1 pai, mas sim várias mães e vários pais, pois seriam filhos da comunidade. Deste modo acabava-se com o sentido de posse que começa logo em criança pelo mais básico: pelos pais. Esse sentido de posse ou apego passa depois para os "meus amigos", o(a)"meu namorado(a)", o(a) "meu marido/mulher"", etc. Ninguém é de ninguém, mas todos serem de todos parece-me uma ideia muito forçada.

Sou pela aceitação do ser humano com consciência das suas imperfeições, o que não implica que todos façamos um esforço para sermos melhores e lutarmos contra inseguranças e medos que racionalmente acabam por ser pequenos e ridículos.

Por isso, só posso citar-me a mim própria para fechar o que penso deste tema, opinião que é saudávelmente passível de discordância:

"O Amor quer-se desprendido, sem a mesquinhez do ciúme, com respeito pela individualidade do outro, sem interferências exteriores que agridam a liberdade pessoal, sem exigências e sem ressentimentos.


Todavia, qualquer sentimento humano é assolado de imperfeição e, mesmo que lutemos contra isso, há sempre momentos de insegurança, de medo, de fragilidade, de solidão."

Bjs e boa semana

a said...

nao acho que apego tenha esse sentido...eu apego-me às pessoas e embora, como tu dizes,às vezes tente "vê-las" como as idealizo, nunca, jamais, as "forço" a serem como eu quero...
a desilusão é só culpa de quem criou para si próprio a ilusão! mas eu não acredito na perfeição e o ser humano é necessariamente imperfeito e ainda bem, digo eu!!!

o texto tb me fez lembrar O Princepezinho.
bjs.xxx

a said...

" ... Quando nos deixamos cativar, é certo e sabido que algum dia alguma coisa nos há-de fazer chorar. "

cá está.d´O Princepezinho